sábado, 8 de março de 2014

O Pentagrama de Fogo Escarlate

Fogsteto Paladinum


   O velho Motty estava deitado em sua cama, gemidos ininteligíveis saiam de seus lábios, a terrível febre negra havia o atingido finalmente. Ao seu redor, seus familiares e melhores amigos, Tin, Patrick e Jonas, o observavam em sua agonia. Sua esposa e alma gêmea, Molly, estava ao seu lado e lágrimas caiam sobre os seus olhos enquanto pranteava por antecedência a morte de seu amado.
– Preciso... – gemeu Motty.
   Todos o encararam surpreso.
– O que tens, meu amor? – perguntou exasperada sua esposa.
– Preciso lhes contar meu grande segredo.
   Todos do quarto se entreolharam. “Qual poderia ser o tão temido segredo?” pensou Tin, o irmão interesseiro e malvado de Motty, com um olhar sínico estampado no rosto. "Será que ele vai contar que eu rasquei a cortina da mamãe?" pensou Patrick, filho do casal, aflito. “Ah cara, vai contar mesmo pra tua mulher que o futebol é as quartas e não as quintas?” perguntou Jonas, o melhor amigo de Motty, a si mesmo.
– Não faça esforços meu amor – disse a esposa.                      
– Espere Molly. Tenho que contar...
– Meu querido, você está gastando as forças que lhe restam.
– Molly, deixe-o contar – pediu Tin – Ou você está com medo de que seja sobre você?
– Deixe-me contar... – ordenou Motty.
   Um silêncio infernal reinou sobre o quarto minúsculo e abafado.                                                                 
– Meu grande segredo é que...
– Senhora Molly – anunciou-se Berna, a governanta caipira da casa, entrando no quarto. – o senhor leiteiro tá ai na frente. Tá esperando dá o dinhero que a senhora tá deveno pra ele.
   Molly olhou Berna, enfurecida.
– Diga a ele que já vou.
– Mas ele num qué ispera. A sinhora tem que î lá agora.
– Oh meu Deus disse Molly, levantando-se e saindo pela porta.
– Então – começou Tin – qual é o segredo que você quer revelar?
– Eu sou... Eu sou... – começou Motty, mas foi interrompido por um grito alto e agudo.
   Molly. Era ela que havia gritado. Outro grito veio à tona. Berna. Tudo na cabeça de Patrick começou a girar.
– Espere aqui, eu vou ver o que é – avisou Jonas, indo pra a varanda.
– Não vá – disse Motty, quase que num sussurro.
– Pai, o que está acontecendo? – perguntou Patrick
– Eu sou um...
– Se escondam – ordenou Jonas, entrando no quarto, assustado. – Rápido.
– O que está havendo? – perguntou Patrick, se escondendo atrás do guarda-roupa de mármore velho que ficava no fim do cômodo.
– Espera, tem alguém aqui – disse Tin, indo em direção da porta.
– Não vá – sussurrou Jonas, que já estava escondido dentro do guarda-roupa, mas ao perceber que Tin não havia ouvido, entrou em desespero.
   Mais um grito. Tin. Eram gritos agonizantes, que poderia deixar qualquer um de cabelo em pé.
– Eu estou confuso – disse Patrick, entre soluços. Lágrimas caiam sobre seu rosto. – Ei, Jonas, e meu pai?
– Não tem como trazê-lo pra cá. Agora se aquiete.
– Não vou deixar meu pai – disse Patrick, saindo de seu esconderijo e indo em direção ao pai. Ficou rígido e sufocou um grito. Havia alguém indo para o quarto. Num súbito movimento, se escondeu de baixo da cama em que o pai estava deitado, morrendo.
Me desculpe pai sussurrou.
   Na visão em que Patrick estava só era possível ver as botas de couro negro entrando pela porta. Patrick se encolheu, com medo. Passos curtos vieram em direção a cama. Pararam a alguns centímetros de Patrick. Ele podia sentir o odor repugnante que emergia dos calçados.
Você aqui...? perguntou Motty, assustado.                                 
Vim terminar o acordo que você fez disse uma voz aguda e grosseira. Parecia um homem. "Só pode ser dele" concluiu Patrick, se referindo à pessoa que usava as botas. Patrick pode perceber bem que elas estavam sujas de um liquido escarlate. Sangue. "Oh meu Deus, o que está acontecendo?" perguntou Patrick a si mesmo, exasperado.
Carliow, por favor...pediu Motty, enfraquecido.
Seu tempo acabou. disse a voz. O som agudo de um metal cortante adentrou pelos ouvidos de Patrick. Pode ouvir um ultimo suspiro, por mais arrepiante que fosse. O ultimo suspiro do pai.
   Patrick fechou os olhos. Não podia acreditar que o pai fora morto de um jeito tão cruel. Abriu os olhos.
   O estranho jogava um certo pó branco no chão, fazendo linhas aleatórias. Ou não. Desenhou um pentagrama. E o pó era bem familiar para Patrick. "Claro" pensou, com lagrimas descendo furiosamente em seu rosto. "Sal".
  Viu as botas saírem do quarto e parar na porta.
Fogsteto paladinum recitou o estranho.
   Fogo começou a surgir do pentagrama, num frenesi total. O quarto estava em chamas. As botas desapareceram de vista. Patrick saiu de baixo da cama e se pôs de pé, vendo uma cena horripilante que nunca gostaria de ter visto. O pai, deitado na cama, olhos abertos, pescoço decepado. E no peito nu, o desenho de um lobo, feito por algum tipo de metal afiado. Sangue por todos os lados. Patrick sentiu uma repulsa crescer dentro de si, mas sentiu que devia fazer uma coisa antes do quarto ser destruído pelas chamas. Fechar os olhos do pai. Deu um passo hesitante, mas algo o assustou.
   Jonas saiu de dentro do guarda-roupa, sufocado. Puxou Patrick pelo braço e saiu correndo com o jovem.
Mas e meu pai? perguntou Patrick, lagrimas corriam pelo seu rosto como uma cachoeira.
Sinto muito – Jonas também chorava. – Ele morreu.
   Jonas e Patrick chegaram à porta da sala. Berna caída deitada no piso de pedra, olhos e boca abertos, morta. Seus braços, cheios de cortes, jorravam sangue a todo lado. Patrick se sentiu enjoado. Mais a frente, outro corpo morto. Tin, caído sobre a varanda, sem as pernas e olhos. As pernas estavam jogadas sobre a cadeira de balanço velha e os olhos estavam amarrados em barbantes, pendurados sobre uma samambaia.
   Patrick congelou. A umas poucas dezenas de metros, estava à mãe, Molly, pendurada em uma árvore do terreno. Patrick correu até ela o mais rápido que pode. Chegou a uns metros da mãe e parou. Molly, enforcada com uma corda cinza, presa ao galho mais alto da árvore, sangue escorrendo pela boca. Patrick vomitou. Lágrimas, misturadas com o vômito e o sangue da mãe. A cena era de um terror puro.
Quem fez isso, Jonas gritou, quase desmaiando. O que era aquele pentagrama? E tudo?
   Jonas, que havia o seguido, estava parado atrás dele, com as mãos na cabeça. Chorava copiosamente.
Não tenho ideia de quem foi. Mas tem uma coisa que me chamou atenção.
   Patrick se virou para Jonas, desnorteado.
O que?
Aquele pentagrama no chão. Já vi em livros. Usavam o sal e o pentagrama para criar um fogo duradouro.
O que você está querendo dizer com isso? perguntou Patrick, confuso e choroso.
Se eu não estiver enlouquecendo, acho que foram bruxos.
   Patrick se virou para observar a casa, que era consumida pelas chamas. "Bruxos" pensou ele, cansado. O que o homem das botas de couro era não tinha importância para Patrick. Só importava o fato de a família estar morta. “Isso não vai ficar assim”, pensou ele, seu corpo começou a fervilhar de raiva. “Não mesmo”.


L.C.Souza

EXCLUO OU NÃO EXCLUO?

Estes dias atrás eu estava vasculhando meu computador quando eu achei uma história que eu havia escrito a tempos atrás. Depois de pensar muito, decidi postar aqui. Ela é estilo suspense fictício. Mas eu não gostei muito. Fala de um homem que está prestes a morrer e que necessita contar um segredo que ele esconde da família há muito tempo. Mas o problema é que tem pessoas que vão fazer de tudo para que ele não conte.    Eu não sei se continuo a história ou se excluo-a. Não gostei muito do resultado, apesar de que eu recebi muitos elogios. E aí, o que eu faço? Vou postá-la e vocês me dizem.
   
L.C.Souza

ASSASSINATO A SANGUE FRIO

   Está aqui. O corpo inanimado está aqui, no chão frio de mármore. Os minúsculos olhos estão drasticamente amassados e as pernas estão totalmente dobradas para trás. Uma tragédia. Uma poça de sangue está se formando embaixo do corpo. Eu o mateiEu o matei a sangue frioEle está ali, morto e eu estou aqui, vivoPor quê? Por que eu o matei, sem nenhum motivo? Tudo bem, eu confesso. Teve um motivo. Ele não parava de me atormentar. Mas será esse um motivo concreto? Ou é apenas o meu eu mal falando mais alto?
   Não sou mal. Não queria matá-lo. E sua família, como fica? E se ele tem milhares de filhos e agora eu os deixei órfãos de pai? Meu Deus, como eu sou malvado. Ele só entrou aqui em casa em busca de algum alimento e eu, imbecil como sou, o matei. Por que isso? Por quê?
   Preciso retirar o corpo sem vida daqui. Não posso deixa-lo apodrecer aqui. De jeito nenhum. Meu Deus, que tragédia! E agora? Tudo bem. Tenho que controlar a minha vontade de chorar. Oh, eu acabo de falhar. Meu rosto está molhado. O espelho está aqui do meu lado. Nossa, eu estou um caco. Cabelo desgrenhado, rosto vermelho cheio de olheiras, suado. Se alguém me vir assim... Tudo bem. Limparei meu rosto e tudo ficará bem. Só preciso recolher o corpo, jogá-lo em algum lixo e...
   Eu sou um assassino. Só agora me caiu a ficha. Eu preciso desabafar com alguém. Será que minha irmã está em seu quarto? Ok. Irei até lá e explicarei tudo nos mínimos detalhes. Ela me entenderia, não é? Estou saindo do meu quarto e vou deixar a porta fechada. O corredor que une o meu quarto e o da minha irmã está escuro. Consigo ver pequeninas sombras passando pelas paredes. Está tudo bem. Não vou me preocupar.
   Estou em frente à porta do quarto de minha irmã. Consigo ouvir uma música alta tocando. É rock metal. Bato na porta e espero. Ouço um destrancar e a porta se abre. Lilian agora está em minha frente. Ela não é daquele tipo de adolescente de dezessete anos que tem todo o quarto enfeitado de rosa e que tem pôsteres de garotos famosos. Ela é a típica adolescente de dezessete anos que tem objetos macabros pendurados na cama e CDs de bandas de rock espalhados pelo chão. Ninguém entende minha irmã.
   Ela está me olhando de um jeito estranho. Será que a minha cara afirma que sou um assassino? Acho que não, porque se fosse assim, não haveria assassinos soltos por aí. Ok, o que eu falo?
– EU SOU UM ASSASSINO – grito desesperado. Ela me olha, com os olhos totalmente arregalados e depois dá uma gargalhada macabra.
– Está assistindo muito filme, nenenzinho – ela supõe, rindo.
   Ela não acredita em mim? E agora, o que eu faço? Já sei. Pego o braço fino dela e a puxo, levando-a para o meu quarto. Ela está relutando bastante. Abro a porta do meu quarto com a mão livre e puxo minha irmã para dentro do ambiente.
– O corpo está ali – digo eu, apontando para o lado esquerdo do espelho. Ela segue o meu dedo com o olhar e faz uma cara confusa.
– Você é maluco! Eu não to vendo nada.
   Puxo-a para perto do objeto de vidro polido e aponto novamente para o corpo.
– Ele está ali, tá vendo? – digo eu. Ela olha novamente e um sorriso falso surge em seu rosto.
– Este é o corpo? – pergunta ela, sufocando uma risada. Concordo com a cabeça e ela começa a rir alto. – Garoto, isso é muito idiota. Joga isso no lixo e cala boca. Todo mundo mata. Eu mato quase todos os dias.
   Lágrimas minhas começam a cair, copiosamente. Ela para de rir e me olha, séria.
– Fica calmo! É normal matar. Um dia você vai perceber que isto é normal. Agora limpa isso e para de chorar, nenenzinho – diz ela, bagunçando os meus cabelos e saindo de meu quarto.
   Tudo bem. Estou muito calmo. Se for normal matar, não preciso me preocupar com isso. Pego um caderno que está jogado em cima de minha cama, rasgo uma folha e limpo os restos do corpo morto. Agora o chão está limpo. Tem apenas uma minúscula mancha de sangue no chão. Estou livre. Dobro a folha – com o corpo dentro – e jogo-a no lixo. Agora, sei que não preciso me preocupar mais quando eu matar um mosquito. Estou livre. Nunca estive melhor.

EM BREVE

Em breve, postarei um novo conto que está mais parecido com uma crônica. Eu achei ele bem idiota, mas vou postar assim mesmo. Estou até pensando em colocar ele num livro de contos que um grupo de livros está propondo. Será?

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