Fogsteto Paladinum
O velho Motty estava deitado em sua cama,
gemidos ininteligíveis saiam de seus lábios, a terrível febre negra havia o
atingido finalmente. Ao seu redor, seus familiares e melhores amigos, Tin,
Patrick e Jonas, o observavam em sua agonia. Sua esposa e alma gêmea, Molly,
estava ao seu lado e lágrimas caiam sobre os seus olhos enquanto pranteava por
antecedência a morte de seu amado.
–
Preciso... – gemeu Motty.
Todos o encararam surpreso.
–
O que tens, meu amor? – perguntou exasperada sua esposa.
–
Preciso lhes contar meu grande segredo.
Todos do quarto se entreolharam. “Qual
poderia ser o tão temido segredo?” pensou Tin, o irmão interesseiro e malvado
de Motty, com um olhar sínico estampado no rosto. "Será que ele vai contar
que eu rasquei a cortina da mamãe?" pensou Patrick, filho do casal,
aflito. “Ah cara, vai contar mesmo pra tua mulher que o futebol é as quartas e
não as quintas?” perguntou Jonas, o melhor amigo de Motty, a si mesmo.
–
Não faça esforços meu amor – disse a esposa.
–
Espere Molly. Tenho que contar...
–
Meu querido, você está gastando as forças que lhe restam.
–
Molly, deixe-o contar – pediu Tin – Ou você está com medo de que seja sobre
você?
–
Deixe-me contar... – ordenou Motty.
Um silêncio infernal reinou sobre o quarto
minúsculo e abafado.
–
Meu grande segredo é que...
–
Senhora Molly – anunciou-se Berna, a governanta caipira da casa, entrando no
quarto. – o senhor leiteiro tá ai na frente. Tá esperando dá o dinhero que a
senhora tá deveno pra ele.
Molly olhou Berna, enfurecida.
–
Diga a ele que já vou.
–
Mas ele num qué ispera. A sinhora tem que î lá agora.
–
Oh meu Deus – disse Molly,
levantando-se e saindo pela porta.
–
Então – começou Tin – qual é o segredo que você quer revelar?
–
Eu sou... Eu sou... – começou Motty, mas foi interrompido por um grito alto e
agudo.
Molly. Era ela que havia gritado. Outro
grito veio à tona. Berna. Tudo na cabeça de Patrick começou a girar.
–
Espere aqui, eu vou ver o que é – avisou Jonas, indo pra a varanda.
–
Não vá – disse Motty, quase que num sussurro.
–
Pai, o que está acontecendo? – perguntou Patrick
–
Eu sou um...
–
Se escondam – ordenou Jonas, entrando no quarto, assustado. – Rápido.
–
O que está havendo? – perguntou Patrick, se escondendo atrás do guarda-roupa de
mármore velho que ficava no fim do cômodo.
–
Espera, tem alguém aqui – disse Tin, indo em direção da porta.
–
Não vá – sussurrou Jonas, que já estava escondido dentro do guarda-roupa, mas
ao perceber que Tin não havia ouvido, entrou em desespero.
Mais um grito. Tin. Eram gritos agonizantes,
que poderia deixar qualquer um de cabelo em pé.
–
Eu estou confuso – disse Patrick, entre soluços. Lágrimas caiam sobre seu
rosto. – Ei, Jonas, e meu pai?
–
Não tem como trazê-lo pra cá. Agora se aquiete.
–
Não vou deixar meu pai – disse Patrick, saindo de seu esconderijo e indo em
direção ao pai. Ficou rígido e sufocou um grito. Havia alguém indo para o
quarto. Num súbito movimento, se escondeu de baixo da cama em que o pai estava
deitado, morrendo.
–
Me desculpe pai – sussurrou.
Na visão em que Patrick estava só era
possível ver as botas de couro negro entrando pela porta. Patrick se encolheu,
com medo. Passos curtos vieram em direção a cama. Pararam a alguns centímetros
de Patrick. Ele podia sentir o odor repugnante que emergia dos calçados.
–
Você aqui...? – perguntou Motty,
assustado.
–
Vim terminar o acordo que você fez –
disse uma voz aguda e grosseira. Parecia um homem. "Só pode ser dele"
concluiu Patrick, se referindo à pessoa que usava as botas. Patrick pode
perceber bem que elas estavam sujas de um liquido escarlate. Sangue. "Oh
meu Deus, o que está acontecendo?" perguntou Patrick a si mesmo,
exasperado.
–
Carliow, por favor... – pediu Motty,
enfraquecido.
–
Seu tempo acabou. – disse a voz. O som
agudo de um metal cortante adentrou pelos ouvidos de Patrick. Pode ouvir um
ultimo suspiro, por mais arrepiante que fosse. O ultimo suspiro do pai.
Patrick fechou os olhos. Não podia acreditar
que o pai fora morto de um jeito tão cruel. Abriu os olhos.
O estranho jogava um certo pó branco no
chão, fazendo linhas aleatórias. Ou não. Desenhou um pentagrama. E o pó era bem
familiar para Patrick. "Claro" pensou, com lagrimas descendo
furiosamente em seu rosto. "Sal".
Viu as botas saírem do quarto e parar na
porta.
–
Fogsteto paladinum – recitou o estranho.
Fogo começou a surgir do pentagrama, num
frenesi total. O quarto estava em chamas. As botas desapareceram de vista.
Patrick saiu de baixo da cama e se pôs de pé, vendo uma cena horripilante que
nunca gostaria de ter visto. O pai, deitado na cama, olhos abertos, pescoço
decepado. E no peito nu, o desenho de um lobo, feito por algum tipo de metal
afiado. Sangue por todos os lados. Patrick sentiu uma repulsa crescer dentro de
si, mas sentiu que devia fazer uma coisa antes do quarto ser destruído pelas
chamas. Fechar os olhos do pai. Deu um passo hesitante, mas algo o assustou.
Jonas saiu de dentro do guarda-roupa,
sufocado. Puxou Patrick pelo braço e saiu correndo com o jovem.
–
Mas e meu pai? – perguntou Patrick,
lagrimas corriam pelo seu rosto como uma cachoeira.
–
Sinto muito – Jonas também chorava. – Ele morreu.
Jonas e Patrick chegaram à porta da sala.
Berna caída deitada no piso de pedra, olhos e boca abertos, morta. Seus braços,
cheios de cortes, jorravam sangue a todo lado. Patrick se sentiu enjoado. Mais
a frente, outro corpo morto. Tin, caído sobre a varanda, sem as pernas e olhos.
As pernas estavam jogadas sobre a cadeira de balanço velha e os olhos estavam
amarrados em barbantes, pendurados sobre uma samambaia.
Patrick congelou. A umas poucas dezenas de
metros, estava à mãe, Molly, pendurada em uma árvore do terreno. Patrick correu
até ela o mais rápido que pode. Chegou a uns metros da mãe e parou. Molly,
enforcada com uma corda cinza, presa ao galho mais alto da árvore, sangue
escorrendo pela boca. Patrick vomitou. Lágrimas, misturadas com o vômito e o
sangue da mãe. A cena era de um terror puro.
–
Quem fez isso, Jonas – gritou, quase
desmaiando. – O que era aquele
pentagrama? E tudo?
Jonas, que havia o seguido, estava parado
atrás dele, com as mãos na cabeça. Chorava copiosamente.
–
Não tenho ideia de quem foi. Mas tem uma coisa que me chamou atenção.
Patrick se virou para Jonas, desnorteado.
–
O que?
–
Aquele pentagrama no chão. Já vi em livros. Usavam o sal e o pentagrama para
criar um fogo duradouro.
–
O que você está querendo dizer com isso? –
perguntou Patrick, confuso e choroso.
–
Se eu não estiver enlouquecendo, acho que foram bruxos.
Patrick se virou para observar a casa, que
era consumida pelas chamas. "Bruxos" pensou ele, cansado. O que o
homem das botas de couro era não tinha importância para Patrick. Só importava o
fato de a família estar morta. “Isso não vai ficar assim”,
pensou ele, seu corpo começou a fervilhar de raiva. “Não mesmo”.
L.C.Souza

