Está aqui. O corpo inanimado está aqui, no chão frio de mármore. Os minúsculos olhos estão drasticamente amassados e as pernas estão totalmente dobradas para trás. Uma tragédia. Uma poça de sangue está se formando embaixo do corpo. Eu o matei. Eu o matei a sangue frio. Ele está ali, morto e eu estou aqui, vivo. Por quê? Por que eu o matei, sem nenhum motivo? Tudo bem, eu confesso. Teve um motivo. Ele não parava de me atormentar. Mas será esse um motivo concreto? Ou é apenas o meu eu mal falando mais alto?
Não sou mal. Não queria matá-lo. E sua família, como fica? E se ele tem milhares de filhos e agora eu os deixei órfãos de pai? Meu Deus, como eu sou malvado. Ele só entrou aqui em casa em busca de algum alimento e eu, imbecil como sou, o matei. Por que isso? Por quê?
Preciso retirar o corpo sem vida daqui. Não posso deixa-lo apodrecer aqui. De jeito nenhum. Meu Deus, que tragédia! E agora? Tudo bem. Tenho que controlar a minha vontade de chorar. Oh, eu acabo de falhar. Meu rosto está molhado. O espelho está aqui do meu lado. Nossa, eu estou um caco. Cabelo desgrenhado, rosto vermelho cheio de olheiras, suado. Se alguém me vir assim... Tudo bem. Limparei meu rosto e tudo ficará bem. Só preciso recolher o corpo, jogá-lo em algum lixo e...
Eu sou um assassino. Só agora me caiu a ficha. Eu preciso desabafar com alguém. Será que minha irmã está em seu quarto? Ok. Irei até lá e explicarei tudo nos mínimos detalhes. Ela me entenderia, não é? Estou saindo do meu quarto e vou deixar a porta fechada. O corredor que une o meu quarto e o da minha irmã está escuro. Consigo ver pequeninas sombras passando pelas paredes. Está tudo bem. Não vou me preocupar.
Estou em frente à porta do quarto de minha irmã. Consigo ouvir uma música alta tocando. É rock metal. Bato na porta e espero. Ouço um destrancar e a porta se abre. Lilian agora está em minha frente. Ela não é daquele tipo de adolescente de dezessete anos que tem todo o quarto enfeitado de rosa e que tem pôsteres de garotos famosos. Ela é a típica adolescente de dezessete anos que tem objetos macabros pendurados na cama e CDs de bandas de rock espalhados pelo chão. Ninguém entende minha irmã.
Ela está me olhando de um jeito estranho. Será que a minha cara afirma que sou um assassino? Acho que não, porque se fosse assim, não haveria assassinos soltos por aí. Ok, o que eu falo?
– EU SOU UM ASSASSINO – grito desesperado. Ela me olha, com os olhos totalmente arregalados e depois dá uma gargalhada macabra.
– Está assistindo muito filme, nenenzinho – ela supõe, rindo.
Ela não acredita em mim? E agora, o que eu faço? Já sei. Pego o braço fino dela e a puxo, levando-a para o meu quarto. Ela está relutando bastante. Abro a porta do meu quarto com a mão livre e puxo minha irmã para dentro do ambiente.
– O corpo está ali – digo eu, apontando para o lado esquerdo do espelho. Ela segue o meu dedo com o olhar e faz uma cara confusa.
– Você é maluco! Eu não to vendo nada.
Puxo-a para perto do objeto de vidro polido e aponto novamente para o corpo.
– Ele está ali, tá vendo? – digo eu. Ela olha novamente e um sorriso falso surge em seu rosto.
– Este é o corpo? – pergunta ela, sufocando uma risada. Concordo com a cabeça e ela começa a rir alto. – Garoto, isso é muito idiota. Joga isso no lixo e cala boca. Todo mundo mata. Eu mato quase todos os dias.
Lágrimas minhas começam a cair, copiosamente. Ela para de rir e me olha, séria.
– Fica calmo! É normal matar. Um dia você vai perceber que isto é normal. Agora limpa isso e para de chorar, nenenzinho – diz ela, bagunçando os meus cabelos e saindo de meu quarto.
Tudo bem. Estou muito calmo. Se for normal matar, não preciso me preocupar com isso. Pego um caderno que está jogado em cima de minha cama, rasgo uma folha e limpo os restos do corpo morto. Agora o chão está limpo. Tem apenas uma minúscula mancha de sangue no chão. Estou livre. Dobro a folha – com o corpo dentro – e jogo-a no lixo. Agora, sei que não preciso me preocupar mais quando eu matar um mosquito. Estou livre. Nunca estive melhor.

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